sexta-feira, 15 de maio de 2015

Prosa: Depressão - o meu testemunho

A dia 31 de Janeiro de 2013 sucumbi à depressão que me rondava desde a minha infância.


A dia 31 de Janeiro de 2013 sucumbi à depressão que me rondava desde a minha infância. Fui abaixo. Comecei a auto-mutilar-me, a ir cada vez mais abaixo. Um mês depois colocaram-me em anti-depressivos.

Aos poucos e poucos fui melhorando. Os antidepressivos ajudaram a manter a minha cabeça afastada de pensamentos tão negativos e "drogaram-me" o suficiente para que não tivesse tempo sequer para me sentir tão mal. Tive uma depressão. E não, a depressão não é uma pessoa sentir-se triste sem saber porquê. Não é só isso. É uma pessoa não sentir. Estar dormente. Sentir que a vida lhe está a passar ao lado e não se importar com isso. É estar vazia por dentro. É um profundo desespero, achar que tudo e todos estarão melhor sem nós. As pessoas agem como se conseguíssemos simplesmente nos pôr felizes. "Sorri, anda lá." "Há pessoas piores que tu". NADA disto ajuda. Antes pelo contrário. Não acham que se pudéssemos ficar felizes estaríamos? Ninguém quer nãosentir nada.

Ninguém quer não sentir nada. Com a minha depressão veio a automutilação. A automutilação surge quando alguém sente que não tem controlo nenhum sobre a sua vida. No meu caso não conseguia controlar quem me magoava e isso foi uma das coisas que me levou a cortar pela primeira vez. Tudo junto associado ao meu profundo desprezo próprio. As pessoas
cortam-se sentem que é a única maneira de estar no controlo da situação. E a compulsão por cortar surge a partir do momento em que a dor pára.

Cortar dói. Mas ao fazê-lo a dor psicológica desaparece por instantes e sentimo-nos normais.
Mas é quando ela desaparece que nos voltamos a cortar. É o desejo de voltar a não sentir nada. E quando cortes superficiais não dor, vamos para os fundos. Tudo para não sermos magoados por outros.

Resultou. Durante meses. Mas houve um dia em que me arrependi seriamente de me ter cortado. E foi aí que soube que estava a melhorar.
E melhorei. Agora não se trata de evitar que me magoem. Trata-se de puro ódio pessoal. Hoje contei as minhas cicatrizes, 100 no braço esquerdo. Elas, juntamente com a minha tatuagem lembram-me porque aqui estou. O passado define-me e eu não o quero esquecer.

Não julguem as pessoas antes de saber o seu passado ou o que as motiva. Sejam felizes. E força. Como diz a minha tatuagem, "tough times don’t last. Tough people do".

Fonte: Texto enviado pela participante Maria João Silva Capitão, 19 anos, da Marinha Grande ao Jornal Correio da Manhã.