domingo, 7 de junho de 2015

Enterrados no lodo por causa da amêijoa

Fernando morreu a apanhar amêijoa. A actividade é ilegal para a maioria, mas movimenta centenas de pessoas e muitos euros

Foto: Mariline Alves


Fernando Farinha cresceu com vista para o Tejo e para o sustento que o rio sempre proporcionou aos tios que o criaram, Jacinto e Almerinda. O tio pescava, a tia vendia na lota, e Fanã – como era conhecido entre os amigos – começou cedo a apanhar bivalves à ‘porta’ de casa. 

O miúdo cresceu e fez-se advogado. Fez-se ainda mestre em Direito Marítimo e era ele que "tantas vezes ajudava os pescadores quando estes tinham de responder a processos, muitos deles precisamente por apanha ilegal de bivalves. Ele escolheu esta área para poder lutar por uma causa que sempre lhe foi próxima", diz um amigo da família. A profissão não impediu Fernando de continuar a apanhar bivalves. Há quem diga que para complementar o ordenado e pôr comida na mesa. Há quem ache que por ser a vida que sempre conheceu. 

Nos últimos nove meses esteve sem entrar no barco, mas no dia 14 de Agosto decidiu fazer-se ao rio para apanhar amêijoa em Alcochete, na companhia de um amigo, e o final não foi feliz. Fernando, ex-fuzileiro, morreu aos 44 anos, atingido pela hélice do barco, antes de voltar à superfície. Deixou a mulher inconsolável, três filhos menores sem pai e uma tese de doutoramento sobre Gestão de Portos que estava a dias de ser apresentada publicamente. "Conheci o Fanã quando ele me pediu ajuda para o trabalho que estava a escrever. Ele defendia que devia ser legal a pesca da amêijoa e se não tivesse morrido tínhamos lutado juntos por esta causa que diz tanto a tanta gente", confirma Joaquim Piló, presidente do Sindicato Livre dos Pescadores. 

NORMANDIA NO TEJO

De manhã, junto à zona de praia do Samouco, no concelho de Alcochete, os carros chegam quase até à rotunda. E a rotunda está longe. Os estacionamentos estão cheios, mas a praia tem poucos banhistas na areia. Para perceber onde se enfiaram as centenas de pessoas que ‘largaram’ os carros à torreira do sol é preciso estar disposto a passar um canal onde a água chega quase à cintura e andar a pé uns largos metros. Ao fundo, para a esquerda e para a direita da ponte Vasco da Gama – onde o trânsito passa indiferente ao cenário por debaixo – estão os apanhadores da amêijoa. Chegam em grupos ou sozinhos; nas mãos carregam pás e baldes, garrafões e sacos vazios, latas de tinta sem tinta; às costas levam mochilas, grandes. São homens, mulheres e crianças. 

"Engenheiros, advogados, todas as profissões, até pessoas que viviam bem até há pouco tempo. Já vêm também romenos, ucranianos e chineses, agora que a crise deu à costa é um arco-íris de nacionalidades a apanhar bivalves", garante Joaquim Piló. "É o subsídio de desemprego e a amêijoa", atira um pescador que tem o barco parado por não ter dinheiro para pagar as multas – algumas por pesca em zonas proibidas. No regresso, voltam torcidos pelo peso que trazem a tiracolo, em filas de gente que lembram marés. "No outro dia contei 347 pessoas e até desisti de continuar, porque não paravam de aparecer", conta Manuel, um filho da terra. "Olhe, parece o desembarque na Normandia [na Guerra Mundial, de 1939/45, quando os Aliados invadiram a Normandia], de tanta gente que por ali vem a caminho", graceja. 

Dentro do cenário, mais perto da ‘terra’ está quem não tem barco e escava à mão à procura do fruto proibido. Lá longe, fica quem leva os barcos até aos fundões e aí os estaciona antes de mergulhar em águas mais profundas (em apneia ou com botija), em busca do mesmo objecto de desejo. Nestes casos, a ganchorra (uma ferramenta de arte de pesca por arrasto) é ajuda preciosa. Há também quem, por não ter barco, apanhe boleia em barcos de pescadores, como confirma Luís (nome fictício).


"Sempre é uma forma de fazer mais uns trocos. Levo seis e sete por viagem e cobro cinco euros por pessoa." Volta depois para os apanhar quando a maré ameaça subir. O cenário repete--se em vários pontos do Estuário do Tejo. A área (classificada como zona C) "não é de proibição absoluta, sendo permitida a captura de bivalves por indíviduos devidamente licenciados. Ainda assim, a apanha com o auxílio de equipamento de mergulho autónomo é totalmente proibida", explica a Autoridade Marítima Nacional. As coimas mais vulgares são "a falta de licenciamento (748 a 49 879,79 euros) e a arte ilegal (598 a 37 409,84 €)". Os pescadores do Tejo, na voz de Joaquim Piló, contestam: "Essas licenças não chegaram a nós, só foram dadas aos pescadores de Sesimbra." 

VIDAS AFLITAS

Maria Silva, de 49 anos, não tem licença alguma, mas encolhe os ombros à menção da palavra ilegal. Fez-se à apanha às 10h00 (a baixa-mar estava marcada para o 12h00) junto com a filha Carina, de 25 anos, e dois cães. O marido está do outro lado da ponte em igual jornada. Trabalhavam ambos no campo até o campo deixar de sustentar a família de cinco. Viraram-se para o rio, "senão morríamos todos à fome. Sempre fui agricultora, mas agora a terra não dá nada. Lá em casa estamos todos desempregados: eu, o meu marido e os meus três filhos (19, 25 e 30 anos). Temos um barco e pescamos peixe para pôr na mesa, mas de manhã vimos para aqui apanhar amêijoa para vender. Vai rendendo pouco, mas sempre vai dando para sobreviver", conta Maria, sem que a conversa a faça parar de escavar o lodo em busca da amêijoa japónica, uma espécie exótica, habitualmente capturada nas zonas das descargas de metais pesados e esgotos, que não é genuína do Tejo mas que ali se multiplica a velocidades estonteantes desde que foi introduzida há 15 anos. 

Existe em abundância no Barreiro, Almada, Seixal, Montijo e Alcochete, todas consideradas zonas C pelo Instituto de Investigação das Pescas e do Mar (IPIMAR), por estarem poluídas com coliformes fecais. Os bivalves aí apanhados só podem ser consumidos se forem transpostos vivos para outro meio natural não contaminado e aí permanecerem por mais de dois meses. Caso contrário, servem apenas para transformação industrial. Ainda assim, e apesar de ser de venda proibida, tem vindo a ser colocada directamente nos consumidores através de circuitos clandestinos. 


"Já rendeu mais, quando havia menos gente a apanhar. Agora, cada dia que passa vêm mais pessoas" – diz Maria, em uníssono com a desilusão de todos os mariscadores que aterraram no Tejo em busca de dinheiro. "Já deu cinco euros o quilo, mas agora anda no 1,5 e 2 euros". Na internet, os anúncios de venda de amêijoa japónica também acompanham a descida do preço: se há um ano os preços se situavam entre os seis e os oito euros, agora os apanhadores vendem-na a partir de 1,80 euros o quilo, sendo que a maioria dos preços publicados se situa nos três euros.

Fonte: Correio da Manhã, 2012
Post publicado por Inês Pinhão